O clássico e satiricamente distópico filme de Terry Gilliam, Brazil (1985), é irônico devido à extensão cativante com que os cineastas elaboraram seus sets. O Brasil foi feito antes da computação gráfica, então tudo nele foi cuidadosamente feito à mão. Mas, dado o tema dos Vídeos Corporativos, essa atenção aos detalhes pode ser comparada ao esforço pródigo que um governo totalitário despenderia para oprimir sua população.

O filme não é sobre o Brasil. Em vez disso, o título é retirado da canção, “Aquarela do Brasil”, sobre um romance no que pareceria, para os habitantes da distopia retratada no filme, como uma terra longínqua exótica:

Quando o crepúsculo escurece o céu acima

Relembrando as emoções do nosso amor

Tenho certeza de uma coisa:

Voltar eu irei

Para o brasil antigo

Satirizando uma burocracia desumana

O mundo do Brasil é aquele em que os cidadãos trabalham muito para manter tudo em seu lugar. Este é um mundo de burocracia desenfreada mantida por máquinas extravagantes, e as máquinas fornecem um ambiente ao qual a maioria dos habitantes se adapta, dissociando-se de sua consciência. O enredo exibe o que a Escola de Sociologia de Frankfurt poderia ter chamado de “mecanização das pessoas”.

O protagonista do filme, Sam Lowry, intencionalmente tem um desempenho inferior no trabalho para não se destacar e receber mais responsabilidades. Participar do sistema, ele assume, é ajudar na opressão de si mesmo e dos outros. Lowry entende que o sistema é desumano e, em vez de se juntar aos terroristas anarquistas que bombardeiam edifícios periodicamente como neo-luditas, ele leva uma vida dupla, lidando com a burocracia e com as máquinas trabalhando, e sonhando acordado com romance e fuga.

Um de seus colegas de trabalho, Jack Lint, é mais empreendedor e menos meticuloso. Lint trabalha no Information Retrieval, o eufemisticamente denominado Departamento de Tortura. O filme extrai muito de seu poder satírico de sua representação de um erro cometido pelo sistema totalitário: uma mosca está presa no teletipo que imprime o nome errado em um mandado de prisão, fazendo com que um homem inocente seja torturado e morto.

A própria burocracia autônoma é estúpida e amoral, então uma falha em seus mecanismos pode ter ramificações devastadoras. Em vez de admitir o erro, Lint cede ao sistema e goza de riqueza e prestígio, enquanto o ambivalente Lowry vive na periferia.

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O que talvez seja mais memorável sobre o Brasil é a infinidade de tubos cômicos que parecem sair de cada canto e fenda dos edifícios. Os canos simbolizam o alcance exaustivo da burocracia e a intrusão de padrões desumanos que sufocam o que o sociólogo Lewis Mumford chama de nossas sensibilidades “orgânicas”.

Uma cena famosa segue o relato de Lowry sobre uma falha no ar-condicionado de seu apartamento. Os Serviços Centrais o ignoram, mas um engenheiro de aquecimento renegado, Archibald Tuttle – interpretado por Robert De Niro, e o próprio homem que a mosca salvou da Recuperação de Informações – aparece e corrige o problema instalando um dispositivo fora do padrão.

O contraste aqui é entre uma mentalidade faça-você-mesmo e uma de submissão à hierarquia. Lowry deveria ter esperado sua vez no calor sufocante de seu apartamento. Novamente, o sistema é incapaz de empatia e não foi projetado para beneficiar o cidadão individual, mas para promover propaganda sobre o bem-estar abstrato do coletivo.

Um par de funcionários dos Serviços Centrais finalmente aparece e destrói o apartamento procurando o dispositivo estrangeiro. Canos, dutos, mangueiras e fios expostos pendem do teto e sobem do chão. Mas Tuttle resgata Lowry novamente e se vinga da dupla de funcionários zelosos, conectando suas roupas de pressão à válvula de esgoto e enchendo-as de fezes.

Os canos estúpidos fluem para os dois lados: eles podem dominar as pessoas com eficiência implacável, mas podem ser desviados para os agentes do sistema.

Nossa Distopia Algorítmica

Os conjuntos de baixa tecnologia do Brasil podem parecer antiquados, e seu retrato da burocracia é irrelevante para a Era da Informação. O mundo do Brasil é orwelliano e kafkiano, mas nós, consumidores pós-industriais, podemos nos perguntar como um regime totalitário tão cru poderia se estabelecer. Uma vez que mais cidadãos se juntem aos terroristas, a burocracia que usa papel seria incapaz de resistir a eles com seus gadgets desajeitados.

Claro, sabemos que o poder ditatorial é relativo. Se uma população descontente também tiver apenas armas rudes e dispositivos idiotas à sua disposição, nem os governados nem os governantes podem ter a vantagem. Nesse caso, um senso conservador de autopreservação exigiria cautela e conformidade.

Independentemente disso, nossa ordem social neoliberal não está livre dos canos tortuosos dos burocratas. Acontece que os tubos foram transmutados de hardware para software. Somos governados não por cabos físicos e eixos que estendem fisicamente o alcance de burocratas decadentes, mas pela lógica distorcida de algoritmos que nos enxameiam nas mídias sociais, estreitando nossas opções e consolidando monopólios como Google e Facebook. E o nosso mais burocracias poderosas não são governamentais, mas corporativas.

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Como Jaron Lanier diz em You Are Not A Gadget,

certos designs específicos e populares da Internet do momento – não a Internet como um todo – tendem a nos puxar para padrões de vida que degradam gradualmente as maneiras pelas quais cada um de nós existe como indivíduo. Esses projetos infelizes são mais orientados para tratar as pessoas como retransmissores em um cérebro global. Desenfatizar a personalidade e o valor intrínseco da experiência e criatividade internas únicas de um indivíduo leva a todos os tipos de doenças.

Sofremos com os acidentes das condições iniciais, mas talvez as origens de alguns dos algoritmos que governam as mídias sociais não fossem tão inocentes. Há muitos documentários e livros sobre como o Facebook, por exemplo, está funcionando conforme inicialmente planejado, para vincular os usuários à plataforma, viciando-os em um fluxo interminável de infoentretenimento. As voltas e reviravoltas da programação, ou dos “tubos” do software, então, não são apenas “infelizes”, como Lanier minimiza.

Ainda assim, qualquer entrada de código acidentalmente útil ou prejudicial ao estabelecer as bases para o ciberespaço seria como a mosca do Brasil no teleimpressor. Longe de nos rebelar contra essas burocracias mais limpas, ou contra a desumanidade crua das suposições dos programadores que estão escondidas no código de computador invisível, nós consumimos avidamente a mídia social. A nossa é uma distopia huxleyana, mais parecida com Admirável Mundo Novo do que com o Big Brother de mão pesada de Orwell.

Se a ideia de que nossas sociedades livres são distópicas soa, na melhor das hipóteses, um exagero histérico, basta consultar os ambientalistas e suas verdades inconvenientes – o equivalente, talvez, dos terroristas do Brasil – para contar com o que os economistas chamam de “externalidades” de nossos empreendimentos comerciais. O impacto do Antropoceno é terrível, mas principalmente escondido da visão do Primeiro Mundo para evitar a interrupção do fluxo de nossos consumos.

Cadáveres humanos e idosos também estão escondidos de nós em necrotérios e lares de idosos, como os algoritmos invejosos das redes sociais, para manter vivo o mito de nossa eterna juventude que está estampado em anúncios como os pôsteres de propaganda no Brasil. As legiões de gado torturado em fazendas industriais raramente são ouvidas porque esses animais são propriedades privadas e sua situação é uma externalidade que é anulada de acordo com a fria lógica capitalista.

Assim, a distopia não é apenas um mundo impossivelmente ruim que existe apenas na ficção, mas pode ser a condição inevitável de um universo sem Deus no qual o pior está fadado a acontecer em todos os lugares eventualmente. A burocracia do Brasil é monstruosamente automatizada, assim como a fisicalidade da natureza que tende à decadência entrópica.